... finda a bonança, e chegada a tempestade que cercava, o que resta é abandonar as armas
e retomar a luta ...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

::: 13 :::


Drão!
O amor da gente
É como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela noite escura...

Drão!
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminhadura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão!
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão
Morre, nasce trigo
Vive, morre pão
drão!
drão!

Gilberto Gil


quarta-feira, 4 de julho de 2012

:::colagens minhas:::

:::sobre o siso:::

dúvida.
ao ponto de bala, de caramelo.
gruda e não sai da cabeça.
mas envolve o medo em novelo de lã de vidro.
tão fino, fio, que só quebra com a voz.
e as vozes falam muito.
como os rostos, dizem nada.
são sombras que vagam e surgem e somem...
ecos.
do mito não sei.
da caverna não saio.
mantenho o senso e o riso tolo.
e ainda dou vivas à revolução!
que não faço.
pois é, e pra quê o entendimento?
fico com os cravos, a ternura  e a trança no cabelo.

paula quinaud


Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia

... E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo.
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
.... Entrai, irmãos meus!

[Vinícius de Moraes, Poética II]


respeito muito minhas lágrimas
mas ainda mais minha risada
inscrevo, assim, minhas palavras
na voz de uma mulher sagrada
vaca profana, põe teus cornos
pra fora e acima da manada
vaca profana, põe teus cornos
pra fora e acima da manada...
ê, ê, ê, ê, ê,
dona das divinas tetas
derrama o leite bom na minha cara
e o leite mau na cara dos caretas

segue a movida Madrileña
também te mata Barcelona
napoli, Pino, Pi, Paus, Punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horiz...
ê, ê, ê, ê, ê,
vaca de divinas tetas
la leche buena toda en mi garganta
la mala leche para los puretas
quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, andaluz
como o que tive em Tel Aviv
perto do mar, longe da cruz
mas em composição cubista
meu mundo Thelonius Monk`s blues
mas em composição cubista
meu mundo Thelonius Monk`s...
ê, ê, ê, ê, ê,
vaca das divinas tetas
teu bom só para o oco, minha falta
e o resto inunde as almas dos caretas

sou tímido e espalhafatoso
torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
no mundo, um grande amor perdi
caretas de Paris e New York
sem mágoas, estamos aí
caretas de Paris e New York
sem mágoas estamos a...
ê, ê, ê, ê, ê,
dona das divinas tetas
quero teu leite todo em minha alma
nada de leite mau para os caretas

mas eu também sei ser careta
de perto, ninguém é normal
às vezes, segue em linha reta

a vida, que é meu bem, meu mal
no mais, as ramblas do planeta
orchata de chufa, si us plau"
no mais, as ramblas do planeta
orchata de chufa, si us...
ê, ê, ê, ê, ê,
deusa de assombrosas tetas
gotas de leite bom na minha cara
chuva do mesmo bom sobre os caretas...

Vaca Profana
(Caetano Veloso) 

:::pois é, e pra quê o entendimento?:::


::: das torres, das obras, dos seres que choram:::



sexta-feira, 22 de junho de 2012

::: ê boi :::

Humberto Espíndola
da série Bovinocultura, 1969
óleo sobre tela



no dia em que acordei  gado,
desgarrado do campo de mim,
me vi remanso.
rês mansa.
com a carne partida em cortes largos.
e o mundo virou pasto!
o raio caiu de ponta,
à cabeça de vento que me era amparo.
e eu baixei o olhar e vi o mundo sem profundidade.
segui o seco e o reto e o conformado.
o oco do universo se fez guia.
o pouco do manifesto se fez água.
e o tudo era só caminhar...
e esperar  na engorda, o abate.
ou redormir.
rês sonhar...

paula quinaud



Humberto Espíndola
Rosa-boi, 1999
acrílica sobre tela
75 X 95cm


por ser de lá
do sertão, lá do cerrado
lá do interior do mato
da caatinga e do roçado
eu quase não saio
eu quase não tenho amigo
eu quase que não consigo
ficar na cidade sem viver contrariado
por ser de lá
na certa, por isso mesmo
não gosto de cama mole
não sei comer sem torresmo
eu quase não falo
eu quase não sei de nada
sou como rês desgarrada
nessa multidão, boiada caminhando à esmo

lamento sertanejo
(Dominguinhos/Gilberto Gil)




da série Cupins

Humberto Espíndola

 criador e difusor do tema bovinocultura.



...na boiada já fui boi
mas um dia me montei
não por um motivo meu
ou de quem comigo houvesse
que qualquer querer tivesse
porém por necessidade...

disparada
(Geraldo Vandré)



Bovinocultura XXI, 1969
óleo sobre tela, 171X151Humberto Espíndola

post concebido a partir do olhar de Janet Zimmermann,
que se lembrou de Humberto Espíndola nos meus versos.

::: e é só :::

quinta-feira, 24 de maio de 2012

:::luz, sombra...emoção:::

... talvez não nos demos conta de que nuvens negras estão próximas, ou do quanto já estamos envoltos por elas, ou até de que sempre estivemos submersos. ou enfim de que elas fazem parte de nossa essência...
ou talvez tenhamos a certeza, sublimada, disso.
certo é que a luz é ponto, o foco é fato e o mito da caverna é sempre recorrente. talvez, a explicação mais sensata da insensatez humana, de não ultrapassar o véu, a nuvem, a treva.
medo infantil de deparar com uma realidade inimaginável a roubar o conforto da segurança de um mundo que se tem ou que foi dito.
lampejos de consciência como esse se esvaem antes do final da escrita desse texto
(e com eles toda e qualquer possibilidade de percepção).
de modo que essa sensação de agora, de profetizar as existências de maneira quase psicográfica, e no tempo real em que a vida corre, não será demasiada suficiente para que se concretize no ato da transposição do manto opaco dos sonhos reais que se acercam.
saber isso é o máximo de lucidez, ou da loucura, que é permitida.
no mais tudo são sombras e relâmpagos.
Deus e homem.  
vida curta. obra crua. gênio raro. 
impacto. 
punhalada.
ave caravaggio!

paula quinaud

Martirio di sant'Orsola
Caravaggio, 1610 – a última tela

Michelangelo Merisi da Caravaggio
Milão, 29 de setembro de 1571
Porto Ercole, 18 de julho de 1610

são Januário que escreve

enigmático, fascinante e perigoso de uma importância artística, para muito além dos mitos românticos que cercam sua trajetória infeliz e atormentada, como o “pintor assassino”.
filho de Fermo Merisi, administrador e arquiteto-decorador  do marquês de Caravaggio, surgiu na cena artística romana em 1600. 


são João Batista, 1603/1604

trabalhador incansável, mas orgulhoso e teimoso.
sempre disposto discussões e em brigas.
em uma delas, em 1606, matou um jovem.
teve que fugir com a cabeça a prêmio.
por essa época pintou as telas de maior lirismo, como:


a ressurreição de Lázaro

pintor basicamente de  temas religiosos, nem sempre teve as suas pinturas aceitas pelos humores dos seus clientes. em vez de adotar belas figuras etéreas e delicadas, optava por modelos mais humanos, prostitutas, crianças de ruas e mendigos...


flagellazione di Cristo, 1607

artista problemático, resistia ao enquadramento numa linha evolutiva na arte. mas teve antecessores e sucessores claros.
do marquês de Caravaggio, surgiu na cena artística romana em 1600.

a coroação de espinhos, 1602/1603

não pintava os modelos vivos ao natural, mas por meio de espelhos e usando uma iluminação artificialmente dirigida, além de fazer uso de instrumentos óticos que projetavam imagens sobre a tela. reza a lenda, que na atitude mais extrema, usou o corpo de uma prostituta fisgada morta do rio Tibre para pintar...

a morte da virgem, 1604/1606.



dimensão, impacto, realismo, fundo raso, obscuro, negro.
 cenas em primeiro plano. focos intensos de luz. detalhes e rostos.
na arte. na vida.
carreira de pouco mais que uma década, morto aos 38 anos.



:::verso verde:::

moto-perpétuo

é algo que não finda.
quando descansa,
lavra o chão da palavra,
a paulinha,
que tem seis olhos
pra zelar e amar,
e mais dois para amar e amar...
ainda
 tem a labuta,
o leão
e tudo enfim,
e por fim,
a poesia desvelada...
é de quina,
la quinaud,
mas não há esquina
na lua do anil...
porque paula quinaud
é circuLar...

Janet Zimmermann
 
 


coluna da poeta Janet Zimmmermann
no jornal Horizonte/MS

:::feliz em participar:::