... finda a bonança, e chegada a tempestade que cercava, o que resta é abandonar as armas
e retomar a luta ...

quarta-feira, 14 de março de 2012

:::poesia e o dono do dia:::

belo dia e o verso não vem.
mais arteiro que mau, perde a hora.
pois se a musa não faz de rogada,
o verbo se faz de ninguém.
a catarse vital se faz longe.
e a palavra servil, caprichosa,
sai dançando entre riscas e notas.
e arisca e distante e louca,
some grave...
e a rima, que é tanta, anda prosa.
ri marota, ao farrapo da escrita.
rima rota!
sem rumo e sem eixo.
diz com texto.
e assim fica tudo estancado.
abafado.
a consciência plena.
o sentimento plano.
e o poema, adiado...
mas  a alma pelada de medo,
sai  vagando ao bailado da sorte.
só e sempre.
como eterna catadora de palavras.

paula quinaud



O Dia Nacional da Poesia, não por acaso, coincide com a comemoração do nascimento do grande escritor baiano Castro Alves. Poeta do Romantismo, foi autor de belíssimas obras, como o “Navio Negreiro” e “Espumas Flutuantes”. Sua arte era movida pelo amor e pela luta por liberdade e justiça.



A um coração
 
Ai! Pobre coração! Assim vazio
E frio
Sem guardar a lembrança de um amor!
Nada em teus seio os dias hão deixado!...
É fado?
Nem relíquias de um sonho encantador?


Não frio coração! É que na terra
Ninguém te abriu... Nada teu seio encerra!
O vácuo apenas queres tu conter!
Não te faltam suspiros delirantes,
nem lágrimas de afeto verdadeiro...
É que nem mesmo — o oceano inteiro —
Poderia te encher!...

Castro Alves

quarta-feira, 7 de março de 2012

:::poeta, pesca, confraria e flores:::


hoje estou líquida.
tento fechar-me em copas,
copos...
mas me derramo em quartos e camas.
inundo travesseiros e poemas...
transbordo com as canções.
ainda ontem eu era sólida,
em pensamentos e posturas,
atos e convicções.
na firmeza das idéias,
na certeza das conquistas.
existia.
anteontem fluía etérea.
sem forma ou peso.
sem rumo.
ocupava todos os espaços.
no frescor, sonhava.
hoje estou líquida...
...porque os estados do espírito mudam
com a força - ou ausência - dos ventos.
com a alternância das marés.
com os ciclos da lua.
com o tempo.
é chegada a hora de cortar os cabelos.

paula quinaud
este poema e outros dois
– às seis e para a memória - 
fazem parte do livro Poetas da Confraria
lançado no último 03 de março no Rio de Janeiro.


:::aí eu fui pescada:::

"Navegar nesse mundo digital é preciso! E conhecer novos versadores é essencial. Por isso, a Poeme-se criou a #pescapoetica - uma ação para apresentar ao mundo novos versos, autores e seus blogs.
A idéia é simples. Recebemos indicações poéticas de nossa rede de amigos que vestem poesia, visitamos o blog indicado, damos uma boa olhada nos versos e fisgamos um bem legal para postar na nossa página do Facebook. Lá colocamos o endereço do blog e falamos um pouco sobre o autor.
Já que é uma ação que conta com nossos amigos, você é responsável pela poesia que será pescada. Mande-nos o nome daquele blog cheio de pérolas pelo twitter seguido da Hashteg #pescapoetica ou nos envie esse material por e-mail – contato@poemese.com."

http://www.poemese.com/

 "O poeta goza deste privilégio incomparável: pode a seu capricho ser o mesmo e ser outro."

charles baudelaire

e só pra não dizer que eu não falei de flores...
do mal

femme2 - sebastião salgado

LXXXI - "Spleen"
E quando pesa o céu, tal tampa grave e baça,
No espírito a gemer e em que só o tédio existe,
E do horizonte enfim todo o círculo abraça,
Vertendo um dia negro e mais que as noites triste;
E quando a terra muda em úmida enxovia,
Em que a esperança é assim morcego pelos murros,
Onde sua asa vibra em medrosa agonia,
Roçando a testa por forros os mais impuros;
E quando a chuva alonga estas linhas tamanhas,
Sempre a imitar as grades de vasta cadeia,
E o calado tropel das infames aranhas
Em nosso coração estende a sua teia,
Os sinos se dispõem com loucura a saltar,
Lançando para o céu o seu vagido horrente,
Espírito que vai errante, sem ter lar,
E começa a gemer tão obstinadamente.
...
charles baudelaire
as flores do mal
tradução de jamil almansur haddad

:::e inspira:::

 Eu quis você
E me perdi
Você não viu
E eu não senti
Não acredito nem vou julgar
Você sorriu, ficou e quis me provocar
Quis dar uma volta em todo o mundo
Mas não é bem assim que as coisas são
Seu interesse é só traição
E mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Tua indecência não serve mais
Tão decadente e tanto faz
Quais são as regras? O que ficou?
O seu cinismo essa sedução
Volta pro esgoto baby
Vê se alguém lhe quer
O que ficou é esse modelito da estação passada
Extorsão e drogas demais
Todos já sabem o que você faz
Teu perfume barato, teus truques banais
Você acabou ficando pra trás
Porque mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Mentir é fácil demais
Volta pro esgoto baby
e vê se alguém lhe quer

flores do mal
renato russo
______________________________________________



Não me atire no mar de solidão
Você tem a faca, o queijo e meu coração nas mãos
Não me retalhe em escândalos
Nem tão pouco cobre o perdão
Deixe que eu cure a ferida dessa louca paixão
Que acabou feito um sonho
Foi o meu inferno, foi o meu descanso
A mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva
Faz do amor uma história triste
O bem que você me fez nunca foi real
Da semente mais rica, nasceram flores do mal

flores do mal
frejat/guto goffi


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

::: ariano :::


“venha sexta musa mensageira, do reino de Eloim, me traga a pena de Apolo e escreve aqui por mim: O Assassino da Honra ou A Louca do Jardim!”

Ariano Suassuna



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

::: nara & elis :::

é de laço e de nó de jibeira,
o jiló dessa vida cumprida a só.

há 70 anos ganhamos nara.
há 30 perdemos elis.
e a romaria segue...


se alguém perguntar por mim,
diz que fui por aí...

há 70 anos ganhamos nara.
há 30 perdemos elis.
e o sol nascerá!


:::

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

:::só me resta ficar nua:::

bailarina, feiticeira.
borboleta madrigal.
que com asas cria vento,
pisca, nasce furacão.
brota cedo,
voa longe.
pare e mata, virginal.
ganha o céu,
cai à terra.
 chove choro, temporal.
mar e pousa .
fada prosa,
leva, leve, seu quinhão.
rosa  d’alma cravejada .
fere os cravos, despedaça.
o remédio é só porção.
de tempo...
reza, luta.
falsa maga,
pó de espera,
encarna ação.
vela acesa,
beija sapo.
segue  coxo o coração.
fêmea, santa, benzedeira.
 nasce junto com aflição.
boa, louca, curandeira,
o veneno vem no peito,
sara bem e mal, diz são.
com o verbo inventa o canto.
re feitura, re feição.
cara nova a cada dia.
puxa a dança.
rasga a fala.
viva , queima na fogueira.
e só porque quer...

paula quinaud

homenagem de Luis Fabiano Teixeira a Clarice Lispector



Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

Clarice Lispector
  

Há muita gente
Apagada pelo tempo
Nos papéis desta lembrança
Que tão pouco me ficou
Igrejas brancas
Luas claras na varandas
Jardins de sonho e cirandas
Foguetes claros no ar
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Clarice era morena
Como as manhãs são morenas
Era pequena no jeito
De não ser quase ninguém
Andou conosco caminhos
De frutas e passarinhos
Mas jamais quis se despir
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Do rio, do rio
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Tinha receio do frio
Medo de assombração
Um corpo que não mostrava
Feito de adivinhações
Os botões sempre fechados
Clarice tinha o recato
De convento e procissão
Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Soldado fez continência
O coronel reverência
O padre fez penitência
Três novenas e uma trezena
Mas Clarice
Era a inocência
Nunca mostrou-se a ninguém
Fez-se modelo das lendas
Fez-se modelo das lendas
Das lendas que nos contaram as avós
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Tem que um dia
Amanhecia e Clarice
Assistiu minha partida
Chorando pediu lembranças
E vendo o barco se afastar de Amaralina
Desesperadamente linda, soluçando e lentamente
E lentamente despiu o corpo moreno
E entre todos os presentes
Até que seu amor sumisse
Permaneceu no adeus chorando e nua
Para que a tivesse toda
Todo o tempo que existisse
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração

Clarice
Caetano Veloso
por Stegun
http://www.fabricarica.com.br/

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

:::mistura, encontro, primavera:::

::: mistura :::
somos feitos da massa imperfeita dos sonhos...

e como tal temos a liberdade de nos misturarmos a outras massas imperfeitas,
que nos tornam capazes de modelar o mundo.
penso que é a isso, que alguns chamam arbítrio.
quando determinadas misturas ocorrem,
temos a estranha mania de achar que podemos mais.
muito mais.
e podemos.
porque nesses momentos peculiares não somos estanques nem individuais.
somos partículas atraídas ao acaso,
para quem acredita nele,
ao ponto primeiro de uma idéia,
que leva a uma ação
e daí à materialização.
depois nos desprendemos e voltamos ao ponto...
brilhante do sonho de  nossa massa essencial.
só que modificados no sentido da troca mais primitiva.
trocamos massa,
porque trocamos sonhos.
tudo lindo, não fosse o processo.
misturas são misturas.
explodem.
e quanto mais o que misturar, maior o risco,
maior o caos,
melhor a explosão geradora de vida.
Explodimos sim
(e com o outro, e com nós mesmos)
e geramos um momento breve de algo...
mas quando me pergunto o sentido
 – e olha que tenho me perguntado –
acho que é justo o processo.
é ele, e só ele, que fica.
cada um com suas possibilidades.
dentro de seu tempo,
vontade e consciência,
contribui a seu modo
– e essência –
para esse pedaço adorável de caos.
quem perdeu o processo,
perdeu,
há que esperar novas misturas...
eu  fico de cá,
feliz e egoísta,
com os punhados de massa alheia
que arrebanho pra mim.

paula quinaud


Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


Florbela Espanca

fotos - Gilvan Barreto