... finda a bonança, e chegada a tempestade que cercava, o que resta é abandonar as armas
e retomar a luta ...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

::: ariano :::


“venha sexta musa mensageira, do reino de Eloim, me traga a pena de Apolo e escreve aqui por mim: O Assassino da Honra ou A Louca do Jardim!”

Ariano Suassuna



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

::: nara & elis :::

é de laço e de nó de jibeira,
o jiló dessa vida cumprida a só.

há 70 anos ganhamos nara.
há 30 perdemos elis.
e a romaria segue...


se alguém perguntar por mim,
diz que fui por aí...

há 70 anos ganhamos nara.
há 30 perdemos elis.
e o sol nascerá!


:::

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

:::só me resta ficar nua:::

bailarina, feiticeira.
borboleta madrigal.
que com asas cria vento,
pisca, nasce furacão.
brota cedo,
voa longe.
pare e mata, virginal.
ganha o céu,
cai à terra.
 chove choro, temporal.
mar e pousa .
fada prosa,
leva, leve, seu quinhão.
rosa  d’alma cravejada .
fere os cravos, despedaça.
o remédio é só porção.
de tempo...
reza, luta.
falsa maga,
pó de espera,
encarna ação.
vela acesa,
beija sapo.
segue  coxo o coração.
fêmea, santa, benzedeira.
 nasce junto com aflição.
boa, louca, curandeira,
o veneno vem no peito,
sara bem e mal, diz são.
com o verbo inventa o canto.
re feitura, re feição.
cara nova a cada dia.
puxa a dança.
rasga a fala.
viva , queima na fogueira.
e só porque quer...

paula quinaud

homenagem de Luis Fabiano Teixeira a Clarice Lispector



Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

Clarice Lispector
  

Há muita gente
Apagada pelo tempo
Nos papéis desta lembrança
Que tão pouco me ficou
Igrejas brancas
Luas claras na varandas
Jardins de sonho e cirandas
Foguetes claros no ar
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Clarice era morena
Como as manhãs são morenas
Era pequena no jeito
De não ser quase ninguém
Andou conosco caminhos
De frutas e passarinhos
Mas jamais quis se despir
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Do rio, do rio
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Tinha receio do frio
Medo de assombração
Um corpo que não mostrava
Feito de adivinhações
Os botões sempre fechados
Clarice tinha o recato
De convento e procissão
Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Soldado fez continência
O coronel reverência
O padre fez penitência
Três novenas e uma trezena
Mas Clarice
Era a inocência
Nunca mostrou-se a ninguém
Fez-se modelo das lendas
Fez-se modelo das lendas
Das lendas que nos contaram as avós
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Tem que um dia
Amanhecia e Clarice
Assistiu minha partida
Chorando pediu lembranças
E vendo o barco se afastar de Amaralina
Desesperadamente linda, soluçando e lentamente
E lentamente despiu o corpo moreno
E entre todos os presentes
Até que seu amor sumisse
Permaneceu no adeus chorando e nua
Para que a tivesse toda
Todo o tempo que existisse
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração

Clarice
Caetano Veloso
por Stegun
http://www.fabricarica.com.br/

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

:::mistura, encontro, primavera:::

::: mistura :::
somos feitos da massa imperfeita dos sonhos...

e como tal temos a liberdade de nos misturarmos a outras massas imperfeitas,
que nos tornam capazes de modelar o mundo.
penso que é a isso, que alguns chamam arbítrio.
quando determinadas misturas ocorrem,
temos a estranha mania de achar que podemos mais.
muito mais.
e podemos.
porque nesses momentos peculiares não somos estanques nem individuais.
somos partículas atraídas ao acaso,
para quem acredita nele,
ao ponto primeiro de uma idéia,
que leva a uma ação
e daí à materialização.
depois nos desprendemos e voltamos ao ponto...
brilhante do sonho de  nossa massa essencial.
só que modificados no sentido da troca mais primitiva.
trocamos massa,
porque trocamos sonhos.
tudo lindo, não fosse o processo.
misturas são misturas.
explodem.
e quanto mais o que misturar, maior o risco,
maior o caos,
melhor a explosão geradora de vida.
Explodimos sim
(e com o outro, e com nós mesmos)
e geramos um momento breve de algo...
mas quando me pergunto o sentido
 – e olha que tenho me perguntado –
acho que é justo o processo.
é ele, e só ele, que fica.
cada um com suas possibilidades.
dentro de seu tempo,
vontade e consciência,
contribui a seu modo
– e essência –
para esse pedaço adorável de caos.
quem perdeu o processo,
perdeu,
há que esperar novas misturas...
eu  fico de cá,
feliz e egoísta,
com os punhados de massa alheia
que arrebanho pra mim.

paula quinaud


Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


Florbela Espanca

fotos - Gilvan Barreto

terça-feira, 22 de novembro de 2011

:::fé:::

sei tão pouco das coisas da terra.
me rendi às perguntas dos homens.
me perdi nas respostas dos credos.
caí.
o momento é crucial...
as cruzes,  pesadas demais.
que faço eu que não sei rezar?
troquei de mau com os deuses do mundo,
faz muito.
fui negligente aos ditos dos céus,
fiz pouco.
a coragem que está em mim,
não grita mais.
no máximo sussurra ajuda.
e o coração segue seco em sonho e tolerância.
perco o perdão.
peço passagem.
traço caminhos que não sigo,
pra despistar um destino que não quero.
e me esconder de mim...
de nada vale.
me escapam as migalhas do que sou.
fazem-se rastro.
me descubro.
e nua, me encontro.
me alcanço no pouco que creio:
no sorriso sincero que me dão.
e na força do medo.
e no remédio do tempo.
mais na lida que na sorte.
fora isso, nada sei.

por não mais, desejo fé.
e tudo que dela advenha.

paula quinaud


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

::: rosa da palavra:::

...porque novembro é mês de rosas...


.e começa com a terceira.

...sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento...

in A terceira margem do rio, da obra Primeiras estórias
íntegra em:

do espetáculo Primeiras Rosas da Cia.Pia Fraus
http://www.piafraus.com.br/

o filho.
o tempo é longo, dura uma vida e o amadurecimento.
o espaço é a presença certeira do rio, o ir e vir dessa vida.
personagens sem nomes, como sombras a mostrar caminhos e dúvidas.
e negar respostas.
a terceira margem, o mundo do inconsciente e do abstrato.
o que não se conhece.
o pai.
e o rio, ri... só rio.


Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira

Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai

Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

:::e segue:::