... finda a bonança, e chegada a tempestade que cercava, o que resta é abandonar as armas
e retomar a luta ...

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

:::dancemos todos em setembro:::

ainda não é primavera, mas setembro sempre chega anunciando cores...
e sons e luzes e cantos... ave Quintana, por aqui esse mês.
eterno...



Canção da Primavera
(Para Érico Veríssimo)

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

Mario Quintana


esse poema foi escolhido para estar no convite para a noite de estréia da The Frenetic Dancing Days Discotheque, em 5 de agosto de 1976 no Rio de Janeiro. traduzia bem a que vinha o local...

e para não perder o tom da lembrança e nem o motivo pra dança do sol:
... dancing in september...

e Quintana e o sol da primavera continuam  por aqui ao longo do mês... mais sobre tudo.
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

:::o pessoa na pessoa... primeira:::

::: estou farto de semideuses :::
onde é que há gente no mundo?



Tuomas Korpi
Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado...

Eu não sei o que sou.
Não sei se sou o sonho
Que alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa história que um deus está relendo...

                      Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

:::passarim, joão:::

meu querer, ido, amor.
um dia pousou-me de lado.
no outro cantou, fez-se ninho...
no terceiro se foi, passarinho.

paula quinaud


broche da artista plástica/designer/ilustradora holandesa
Marloes Duyker
(série - ilustrações com máquina de costura)
Naked Design – Utrecht



quinta-feira, 25 de agosto de 2011

::: tango :::

Tango Nuevo II - Pedro Alvarez

tango

no escuro, só, num canto,
adentras meu cenário.
em vista, a aventura.
que importa o meu desejo,
me tomas pa’bailar.

começa a contra dança,
de início a contra tempo.
alinha-se o par.
afina-se improviso.
nos olhos o impreciso.
e o tempo a girar.

seguimos com passado.
de noite ao mar só rosas.
de dia amar só prosas.
e a mão presa na coxa.
enlaçam-se as notas,
relevam-se as penas.
há fogo em cada volta.
ninguém quer apagar.

e segue a meio dia,
tão velha melodia,
e quem para escutar?
avanço, tu recuas.
eu cresço e continuas,
a me tremer as pernas.
a me roubar o ar...

distraio e rodopio.
e muda o andamento,
desanda a evolução.
um ocho e de repente,
estou a sufocar.
reflito  e troco o passo,
me levas pelo braço.
só ris.

diriges meu caminho.
tu dizes que conduz.
adestras movimento.
enquadras pensamento.
condenas a impostura.
controlas o equilíbrio.
com, junto, orquestrado.
percurso ensaiado.
transferes todo o peso,
eu fico rente ao chão.

atacas em falsete,
já quer variação.

aperta o compasso,
acirra a marcação:
andante,
imoderado.
por gênio,
atravessado.
não mais entrelaçado.
de duro a sincopado,
em ritmo binário.
requer compensação.
num tom tão agressivo,
me jogas para o alto.
eu caio assim tão fácil...

eis que então diz perto.
e a dama aqui já pensa.
a cena ali tão densa.
que já se fez duelo.
e tácito não mais.
sequencia interrompida.
mais crua que falida,
apruma-se o final.

e de tronco virado,
deslocas para a frente,
diz, louca, para o lado.
eu rodo em sua mão.
ocupas meu  espaço,
teu corpo em novo eixo.
meu  dorso encontra baixo,
eu saio a contra posto.
não somos mais um par.
só um.

acende-se a luz.
ninguém a aplaudir.

paula quinaud

trilhas possíveis:

a inspiração eterna...


ótima sugestão da amiga Cleonice A. de Paula
(e tema do primeiro vídeo poema)



... só porque um tango argentino,
quase sempre,
me cai melhor que um blues ...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

::: baile, renoir e mallarmé :::

:::o baile:::

trago impressões desses dias,
decalcadas nas tramas das telas.
a paleta me serve de ponte.
um mundo de rosas...
e azul.
damas da noite,
moças da arte.
danças de corte.
a beleza é sempre o que fica,
a leveza o que  cabe na vida.
a cidade com luzes tão nuas,
ri.
finta  fresca, se faz de fluída.
cedo sonho,
traço.
passo.
e guardo o que é dor só em mim.

fico.
o tempo aqui é momento.

paula quinaud

Le Moulin de la Galette, 1876

Pierre Auguste Renoir
25-02-1841 ( Limoges)  -  3-12-1919 (Cagnes-sur-Mer)
artista plástico francês - fez parte do impressionismo.
autoretrato, 1897

estilo artístico marcado pela presença de cores fortes e brilhantes, texturas, linhas harmônicas e grande sentimento lírico. pinturas em que prevalecem as formas humanas individuais, grupos de pessoas e paisagens. 


"A dor passa, mas a beleza permanece."

Menina com espigas, 1888

apesar das críticas que recebeu quando começou a pintar, Renoir era um artista que não tinha vergonha de celebrar a beleza:
"Não dou um nu por terminado até que tenha a sensação de que possa beliscá-lo."

Banhista enxugando a perna direita, 1910

boas biografias:


algumas obras :
 
Mulher com sombrinha, 1867

O Camarote, 1874

Remadores em Chatou, 1879

A dança em Bougival, 1883

Odalisca, 1904

Retrato de Claude Renoir, 1908


o Brasil em rosa e azul:
"As Meninas Cahen d'Anvers" foi encomendado em 1881 pelo banqueiro Louis Raphael Cahen d'Anvers, pai das meninas Alice e Elisabeth Cahen d'Anvers, que aparecem no quadro. A obra pertence ao acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP) desde que foi adquirida por Assis Chateaubriand (fundador do Museu).

Les Demoiselles Cahen d'Anvers - Rose et Bleue, 1881

"Renoir, pintando Rosa e Azul, mostra na vibração da superfície e das cores vivas que compõem os vestidos das meninas toda a vivacidade e a graça instintivamente feminina que se esconde atrás da convenção da pose, todo o frescor e a candura da infância. As meninas quase se materializam diante de observador, a de azul com o seu ar vaidoso e a de rosa com um certo enfado, quase beirando as lágrimas."
(Texto junto ao quadro - MASP)

se a família não gostou do resultado do quadro, que ficou esquecido, escondido em um lugar qualquer obscuro da casa e só muitos anos depois redescoberto, o tempo lhe fez jus e a história trouxe seguidores.
 serviu de inspiração para muitos artistas...


Damas em Giverny, 2005  (óleo sobre tela - 47x59cm)
Washington Maguetas,
imaginando como estariam estas duas irmãs de rosa e azul após alguns anos, visitando os jardins da casa de Monet na cidade de Giverny, na França.


"Meninas da Noite", 1994 – (óleo sobre tela/madeira - 56 x 40 cm)


Magali e Mônica de Rosa e Azul, 1989
Maurício de Souza
após ver pessoas tentando copiar o quadro original durante uma exposição no MASP.

"Porque a Pintura não pode ser Bela? O Mundo já tem coisas desagradáveis demais."

Les deux sœurs, 1889
crê-se que as modelos sejam as mesmas:

sua forma de observar o mundo e a natureza, tornam-no inconfundível. a luz se espalha pelos seus quadros e capta o momento, segundo a sua impressão...

impressionismo - movimento das artes plásticas que se desenvolve na pintura entre 1870 e 1880, na França, no fim do século, e influencia também a música. é o marco da arte moderna porque é o início do caminho rumo à abstração. a intenção é apreender o instante em que a ação está acontecendo, criando novas maneiras de captar a luz e as cores.

a primeira exposição pública impressionista é realizada em 1874, em Paris.
entre as obras, está a tela que dá nome ao movimento:

Impressão: o Nascer do Sol, 1872
Claude Monet

Outros expoentes são os franceses Édouard Manet (1832-1883), Auguste Renoir (1841-1919), Alfred Sisley (1839-1899), Edgar Degas (1834-1917) e Camille Pissarro (1830-1903).

Ao piano, 1893

de música também se faz impressão:
as idéias do impressionismo são adotadas pela música por volta de 1890, na França. as obras se propõem a descrever imagens e várias peças têm nomes ligados a paisagens, como Reflexos na Água, do compositor francês Claude Debussy
(1862-1918), pioneiro do movimento.






Láprès-midi d'un faune

Ces nymphes, je les veux perpétuer. Si clair,
Leur incarnat léger, qu'il voltige dans l'air
Assoupi de sommeils touffus.
Aimai-je un rêve ?
Mon doute, amas de nuit ancienne, s'achève
En maint rameau subtil, qui, demeuré les vrais
Bois même, prouve, hélas! que bien seul je m'offrais
Pour triomphe la faute idéale de roses --
Réfléchissons...
(...)
O sûr châtiment...Non, mais l'âme
De paroles vacante et ce corps alourdi
Tard succombent au fier silence de midi :
Sans plus il faut dormir en l'oubli du blasphème,
Sur le sable altéré gisant et comme j'aime
Ouvrir ma bouche à l'astre efficace des vins !
Couple, adieu ; je vais voir l'ombre que tu devins.



fragmento :
A tarde de verão de um fauno
A tarde de um fauno
A sesta de um fauno

 
 "...E que ao lento prelúdio onde nascem as flautas,
E que ao prelúdio lento em que nascem as flautas,
E que ao lento prelúdio das varas de visgo,
Este arroubo de cisnes, ou náiades! foge
Este vôo de cisnes, náiades! se esquiva
Esses signos no ar, mulheres! ludibriam
Ou mergulha....
Ou imerge...
Ou afundam...”


tridução de Décio Pignatari
(traduziu cada verso de três modos diferentes)
muito mais em outro post - breve...


conhecido por ser um marco na história do simbolismo na literatura francesa - Paul Valéry considerou-o como o maior poema da literatura da França -
originou também o balé L'après-midi d'un faune de Vaslav Nijinsky,  sendo assim a primeira experiência de arte multidisciplinar da Arte Moderna. 


e foi ilustrada por Édouard Manet:

frontispice pour l’Après-Midi d’un faune, par Edouard Manet (1876)


"O Pintor da vida"  trazendo beleza, paz e alegria às almas que o cercam, viveu 78 anos…
reza a lenda que Renoir não passou nenhum dia sem pintar, e
no final da vida visitou no Louvre, seus quadros entre os dos grandes.
assim se fez mestre também.

Mulher lendo, 1891
e no fim  (e no início) tudo é poesia...

domingo, 14 de agosto de 2011

:::aos meninos que se fazem pais:::

::: meninos :::


nos caminhos da palma da mão de um menino,
há bem mais que a escrita da história.
que o relógio da vida contado.
do que a linha da sorte marcada,
advinda e adivinhada...
porque as rugas das mãos não se fazem,
nem espantam os meninos dos olhos.
pois no fundo dos olhos cansados,
bem no fim,
lá,
assim...
estarão somente os meninos.
(basta olhar)

bons meninos,
pra sempre serão só crianças.
maus meninos também.
traquinas, afoitos, leais, assustados.
meninos levados, eternos guerreiros.
quixotes domados,
moinhos de vento inventados...
heróicos, tem, justos, que serem bem fortes.
seguros, só podem contar com si mesmos.
cordatos, armados, em alerta constante.
se reis, solitários, em mundos reais.
ou nem tanto.
se bravos soldados em luta por paz,
altivos, cativos.
dobrar-se jamais.
tão cedo aprendem a cantar os seus cantos.
de morte, de norte, fadiga e de fuga.
meninos não choram, senão muito baixo.
meninos não amam, senão com resguardo.
pra sempre suportam a honra do homem.
no fundo inventam o papel que lhes cabe.
esteio, arrimo, infiel, provedor.
provam dor.
dissabor.
sucumbem reféns de suas próprias vontades.
a prova a conduta, no amor reprovados.
sem nunca, porém, revelarem o que sentem.
sem nunca negarem o valor de um amigo.
o acesso é restrito, são parcas as dores.
- é pouco o cabível a quem nasce varão.
opção?
prova-ação.
oração...
meninos por vezes se põem a rezar.
nem se nota.
se fazem doutores de muitas escolas.
meninos aprendem com mestres meninos.
a arte da caça e de ser gente e grande.
o ofício do sonho e de nunca crescer.

meninos pintados.
extintos, eternos.
meninos guardados na palma da mão.

paula quinaud