"A criança está disponível para a poesia. Ao ponto de poema. A criança ainda não sabe o comportamento das coisas. E pode inventar. Pode botar aflição nas pedras e assim por diante. As crianças não sabem que pedra não tem aflição ou se os peixes dão flor."
"...os absurdos, os despropósitos são bens da poesia..."
Manoel de Barros
João vendo peixe (e pensando em flores???) é que é poesia...
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio
Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
A inércia é o meu ato principal.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Por pudor sou impuro.
Não preciso do fim para chegar.
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra
- Como um lápis numa península.
Do lugar onde estou já fui embora.
Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.
Cava,
então descansa.
Enxada; fio de corte corre o braço
de cima
e marca: mês, mês de sonda.
Cova.
Joga,
então não pensa. Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e seca; rês, rês de malha.
Cava.
Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco planta o vau
de perto
e talha: três, três de paus.
Cova.
Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o rego
de longo
e forma: nó, nó de resmo.
Joga.
Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.
Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.
Mário Chamie
(Cajobi, 1 de abril de 1933 - São Paulo, 3 de julho de 2011)
Nome muito importante na história das vanguardas surgidas no final da década de 1950 no Brasil, como dissidente do concretismo.
Fundador do poema-práxis com seu livro Lavra Lavra, de 1962, com um posfácio em formato de manifesto. A proposta era mostrar em poesia a prática da vida. Feita com um apanhado de palavras dentro da semântica do tema de escolha do autor.
Foi Secretário Municipal de Cultura e criou a Pinacoteca Municipal, o Museu da Cidade de São Paulo, e o Centro Cultural São Paulo.
Tem mais de 140 obras publicadas e traduzidas em 57 idiomas.
"A criatividade se apresenta tão dele e tão não somente dele que é como se palavras, ou relações entre palavras, nascessem com ele, como se fossem de todo inventadas".
Michaela Pavlátová nasceu em Praga, República Checa, em 1961.
Em 1987, ela se formou em animação na VSUP - Academia de Artes, Arquitetura e Design, em Praga.
Seus filmes têm recebido inúmeros prêmios em festivais de cinema internacionais, incluindo uma indicação ao Oscar por “Reci, reci, reci” (Palavras, palavras, palavras), de 1991.
O seu curta de animação, “Repete” de 1995 , também arrecadou uma série de prémios incluindo o Grande Prémio no Festival de Animação Internacional de Hiroshima e um Urso de Ouro em Berlim.
Forever (1998), realizado com Pavel Koutecky, combina animação e cenas com atores.
Em 2000 dirigiu The Absolute Love, episódio do filme coletivo Prague Stories. No ano seguinte rodou o documentário About Grandmother.
Em 2006 realizou o filme “Carnival of Animals”, em conjunto com o ilustrador Vratislav Hlavaty, que acabou por vencer o Grande Prémio em Espinho. Recentemente, como realizadora, passou para os filmes em "live action".
Em 2008 acabou o seu segundo longa-metragem (em live-action) "Night Owls". Também faz ilustrações e ensina animação.
Michaela vive e trabalha em Praga.