... finda a bonança, e chegada a tempestade que cercava, o que resta é abandonar as armas
e retomar a luta ...

domingo, 26 de junho de 2011

::: palavras, palavras, palavras :::

palavras a quem as mereça...
e aos que não mereçam também...


Michaela Pavlátová nasceu em Praga, República Checa, em 1961.
Em 1987, ela se formou em animação na VSUP - Academia de Artes, Arquitetura e Design, em Praga.
Seus filmes têm recebido inúmeros prêmios em festivais de cinema internacionais, incluindo uma indicação ao Oscar por “Reci, reci, reci” (Palavras, palavras, palavras), de 1991.
O seu curta de animação, “Repete” de 1995 , também arrecadou uma série de prémios incluindo o Grande Prémio no Festival de Animação Internacional de Hiroshima e um Urso de Ouro em Berlim.
Forever (1998), realizado com Pavel Koutecky, combina animação e cenas com atores.
Em 2000 dirigiu The Absolute Love, episódio do filme coletivo Prague Stories. No ano seguinte rodou o documentário About Grandmother.
Em 2006 realizou o filme “Carnival of Animals”, em conjunto com o ilustrador Vratislav Hlavaty, que acabou por vencer o Grande Prémio em Espinho. Recentemente, como realizadora, passou para os filmes em "live action".
Em 2008 acabou o seu segundo longa-metragem (em live-action) "Night Owls". Também faz ilustrações e ensina animação.
Michaela vive e trabalha em Praga.

site oficial: http://www.michaelapavlatova.com/


::: chegou a hora da fogueira :::

Minh'alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...

O meu impossível
Florbela Espanca

::: porque junho, com riso ou com tormenta - parcialidade minha - merece ser celebrado :::


postei isso em 2008 e acho que continua valendo...
senti vontade de repetir...........................


sexta-feira, 24 de junho de 2011

::: entre netas e avós :::


a avó da minha avó,
trisavó?
mandava mobiliar a cabeça...
não queimou sutiã,
mas mobiliava a cabeça:
não liga pra casa,
mobília a cabeça!
deu conselho.
(era moderna de 22)
minha avó obedeceu...
com lidos, cruzadas
e conversa, Laurindo.
- fiquei tempos pensando no Laurindo -
deu de ler.
lia.
ela e eu.
lidava...
ela só.
vida andou,
tempo veio.
resolvi por mobília em mim...
com cenas, cruzadas
e muita palavra.
- fico tempo pensando nas palavras -
faço um mundo de coisa sem fim!
a avó da minha avó ficaria abismada...
ligo pra casa.
(sou antiga de 2000)
- minha avó também -
queimo o sutiã.
- minha avó não -
e mobílio a cabeça!
penso muito,
talvez de sempre...
de quando em vez,
dei de escrever.
escrevo.
minha avó conta causo...
(e conta o causo de novo)
a gente acha graça, e bom.
(e escuta o causo de novo)
a avó da minha avó já foi,
de muito.
ta botando mobília no céu!
minha avó segue...
lendo prosa,
rindo verso,
citando Laurindo,
(aí eu penso de novo no Laurindo!)
dá exemplo...
tem palavra,
faz cruzada,
e um cafuné danado de bom.
eu,
vou levando.
tudo.
e o conselho da avó da minha avó.


paula quinaud

terça-feira, 14 de junho de 2011

::: decifro-te ou me devoras :::

escrevo coisas.
penso pensamentos.
mais nada…
na maioria das vezes.
nas vezes que não maioria,
escrevo.
só.
nem os pensamentos tenho...
psico. grafo.
devoro. me.
antropo-fago-me.
grafo... fago...
fagografo.
como palavras e os eus.
como as palavras e, adeus.
abarco,
aplaco.
afronto!
por piedade,
decifra-me.
por lealdade,
devoro-te.
decifra-me tu.
devoro-te eu.
aí, já não existes...
estendo domínios,
sem mais tu.
mas sem eu!
abato.
venço.
cresço.
feneço,
perco.
breu...
ilumina-me tu!
brado,
choro.
imploro...
renasces,
fênix.
por mais que te coma,
com palavras...
renasces sempre.
das entranhas,
da cabeça...
quem presa?
quem pressa?
quem enigma a mente...
segue o ciclo.
e nova-mente,
me rendo à essência,
minha,
sina.
em sina.
entenda-me tu.
abocanho-te eu.
em vão...
sem força vital ,
veneno contido,
dominada,
caída,
exaurida...
por redenção devora-me.
por rendição decifro-te.
oráculo exposto.
devora-me tu!
decifro-te eu...

Paula Quinaud



terça-feira, 7 de junho de 2011

:::fragmento, costa e Maiakóvski:::




No Caminho, com Maiakóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!


Eduardo Alves da Costa

Nasceu em Niterói, Rio de Janeiro em 1936.
Formado em Direito na Universidade Mackenzie em 1952, em São Paulo SP.
Por volta de 1960 organizou as Noites de Poesia, no Teatro Arena, em São Paulo, uma das mais instigantes atividades culturais do período. É dessa época seu poema mais popular, "No caminho, com Maiakóvski", escrito como manifestação contra a intolerância da ditadura militar, que por uma série de equívocos teve a autoria durante muitos anos atribuida ao russo Vladimir Maiakóvski.



segunda-feira, 6 de junho de 2011

::: Janet Zimmermann :::

Saudade dos livros que não li

Li
Muito
e
poucos
livros li
e
do que pude ler
muito gostei
posto que ler
é transcender
porque
nos livros que li
li cores
sons
sabores
mas
mais ainda gosto
dos livros
que não li
pois os que li
li...
os que não li
ai de mim
não li sonhos
assim
os livros
que não li
não me existiram
e vice-versa
sendo que
nos livros que li
fui intensamente
feliz...
porém
nos que não li
asas quebradas...
já que
livros não lidos
livros
não revoados
nem explorados
ou experiencializados...
Apesar de que
não desdenho
os livros
que li
pois lidos livros
são
p
 o
  n
  t
 e
s
para a
sabedoria
aos não
lidos livros
já que
se não
os tivesse lido
não haveria
a imaginação
nem a curiosidade
pelos vindouros
livros
na comparação
que me impele
ao
vasto novo mundo
Portanto
por quanto tempo viver
sonharei
livre livros ler.
Janet Zimmermann

pedi a Janet um poema para publicar aqui. ela escolheu esse, porque achou que combinava com o blog.
penso que ele combina com tudo, daquelas leituras de se reler muitas vezes...
obrigada pela delicadeza sempre.

leve... leve... leve...