... finda a bonança, e chegada a tempestade que cercava, o que resta é abandonar as armas
e retomar a luta ...

terça-feira, 14 de junho de 2011

::: decifro-te ou me devoras :::

escrevo coisas.
penso pensamentos.
mais nada…
na maioria das vezes.
nas vezes que não maioria,
escrevo.
só.
nem os pensamentos tenho...
psico. grafo.
devoro. me.
antropo-fago-me.
grafo... fago...
fagografo.
como palavras e os eus.
como as palavras e, adeus.
abarco,
aplaco.
afronto!
por piedade,
decifra-me.
por lealdade,
devoro-te.
decifra-me tu.
devoro-te eu.
aí, já não existes...
estendo domínios,
sem mais tu.
mas sem eu!
abato.
venço.
cresço.
feneço,
perco.
breu...
ilumina-me tu!
brado,
choro.
imploro...
renasces,
fênix.
por mais que te coma,
com palavras...
renasces sempre.
das entranhas,
da cabeça...
quem presa?
quem pressa?
quem enigma a mente...
segue o ciclo.
e nova-mente,
me rendo à essência,
minha,
sina.
em sina.
entenda-me tu.
abocanho-te eu.
em vão...
sem força vital ,
veneno contido,
dominada,
caída,
exaurida...
por redenção devora-me.
por rendição decifro-te.
oráculo exposto.
devora-me tu!
decifro-te eu...

Paula Quinaud



terça-feira, 7 de junho de 2011

:::fragmento, costa e Maiakóvski:::




No Caminho, com Maiakóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!


Eduardo Alves da Costa

Nasceu em Niterói, Rio de Janeiro em 1936.
Formado em Direito na Universidade Mackenzie em 1952, em São Paulo SP.
Por volta de 1960 organizou as Noites de Poesia, no Teatro Arena, em São Paulo, uma das mais instigantes atividades culturais do período. É dessa época seu poema mais popular, "No caminho, com Maiakóvski", escrito como manifestação contra a intolerância da ditadura militar, que por uma série de equívocos teve a autoria durante muitos anos atribuida ao russo Vladimir Maiakóvski.



segunda-feira, 6 de junho de 2011

::: Janet Zimmermann :::

Saudade dos livros que não li

Li
Muito
e
poucos
livros li
e
do que pude ler
muito gostei
posto que ler
é transcender
porque
nos livros que li
li cores
sons
sabores
mas
mais ainda gosto
dos livros
que não li
pois os que li
li...
os que não li
ai de mim
não li sonhos
assim
os livros
que não li
não me existiram
e vice-versa
sendo que
nos livros que li
fui intensamente
feliz...
porém
nos que não li
asas quebradas...
já que
livros não lidos
livros
não revoados
nem explorados
ou experiencializados...
Apesar de que
não desdenho
os livros
que li
pois lidos livros
são
p
 o
  n
  t
 e
s
para a
sabedoria
aos não
lidos livros
já que
se não
os tivesse lido
não haveria
a imaginação
nem a curiosidade
pelos vindouros
livros
na comparação
que me impele
ao
vasto novo mundo
Portanto
por quanto tempo viver
sonharei
livre livros ler.
Janet Zimmermann

pedi a Janet um poema para publicar aqui. ela escolheu esse, porque achou que combinava com o blog.
penso que ele combina com tudo, daquelas leituras de se reler muitas vezes...
obrigada pela delicadeza sempre.

leve... leve... leve...

domingo, 5 de junho de 2011

::: tempo neocontado :::

a flor sobre a mesa é plástico.
a beleza comprada a vintém.
sê quem tem.
energia em doses no vidro.
alegria mal vem e se acaba.
mal.
é a vida de agora, é a hora.
nova era e me cai como um raio,
sem luz!
e sem rosto, e sem voz, mas com cara.
mascara.
camarada e a contagem inicia.
contagia, vicia e instiga...
intriga.
enreda...
e veloz e em tudo e eu me rendo.
porque o sol da manhã é tão forte,
mas o fogo do tempo é tão fraco.
a lembrança do rumo é meu norte.
nas janelas do espaço eu me perco.
sai-berço-espaço... esplêndido.
renasço.
mas tão perto do início, o enfim.
só.
assim...
e a certeza se esvai pelo ralo,
da rede.
adiciono e afins e a contento.
contratempo...
sentimento ruim eu bloqueio.
ou excluo com um toque e três teclas.
o aval para a dor me foi dado.
se quiser vivencio ou aplaco.
parador, para a flor, paro o raio.
paro o dado da sorte lançado.
para o curso, cursor, desatino.
paro lá, passo a crer no destino.
na ventura,
e a fatura a pagar.
(qual será?)
e se bom reaver tanto sonho.
a surpresa do novo tal qual...
essa rede também pesca gente!
pontes caras que antes quebradas,
são agora refeitas, constantes.
e outras vias no acaso encontradas,
trazem novos tão velhos confrades.
que se acham, se achavam perdidos.
escondidos.

passo a perna na curva da história.
e meu leme descubro e domino.
e até volta o meu sonho menino...
de num mundo poder me inventar.
navegar.
ser senhor desse tempo e de mim.

o arquivo do eu faço já.
- sempre há que se ter memória suficiente.

paula quinaud


o poeta Paulo Carvalho - o astronauta - me pediu um poema para o seu blog. escrevi esse pensando nessas novas relações que se estabelecem, nesse espaço mágico e surpreendente em que estamos... e nos meus amigos de todos os jeitos, épocas e lugares.
muitos beijos a todos...
(que especialmente ontem - 04 de junho - fizeram o meu dia muito especial)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

::: jubiabá :::

início do mês Jorge Amado



(ilustrações de Carybé)


Jubiabá
romance de 1935

retrata o cotidiano das classes populares na cidade de Salvador sob a ótica de Antônio Balduíno. um negro que morava no Morro do Capa-Negro, na Bahia. Baldo é seu apelido, colocado por Jubiabá, um pai-de-santo muito respeitado. a narrativa acompanha suas diferentes fases - desde quando vivia nas ruas, ainda criança, cometendo pequenos delitos, agregado a um comendador, malandro, boxeador, trabalhador nas plantações de fumo e artista de circo. o aspirante a herói popular, segue vida aproveitando-se das mulheres, criando confusões e malandreando pela Bahia, até se tornar estivador e fazer greve. por fim descobre que ser livre não é viver sem trabalhar. ser livre é lutar por um ideal.


ainda menino, Baldo se convence de que teria um ABC em seu nome. (ABCs - livretos de histórias heróicas, populares entre as classes baixas do povo baiano)
segue carreira rumo ao seu ABC...


com esse livro, Jorge Amado trouxe para seus romances a tese comunista do "etapismo", que defendia uma aliança política da esquerda popular com a burguesia.


e foi fonte de inspiração para diversos artistas:


Jubiabá
Martinho da Vila

O homem tem dois olhares
Um enxerga, e o outro que vê
Um enxerga, e o outro que vê
Tem o olho da maldade
E o olho da piedade
Tem que ter
Olho bem grande
Pra poder sobreviver
Jubiabá, Ô Jubiabá
Faz o feitiço bem feito
Pra minha nega voltar
No morro do Capa Negro
Quero lhe cambonear

Se secar o olho da maldade
O homem vai sofrer
Sem entender, a ruindade do mundo
Que o seu lado bom vai ver
E sem seu olho da piedade
Vai fazer gente sofrer, magoar, ferir
Sem refletir, e bem mais cedo
Vai desencarnar, subir
É a lei de Jubiabá
Ô Jubiabá
Faz o feitiço bem feito
Pra minha nega voltar
No morro do Capa-Negro
Quero lhe cambonear

Quero meus olhos abertos
Quero bem longe enxergar
Vendo o errado e o certo
Posso diferenciar
No morro do Capa-Negro
Quero lhe cambonear
Jubiabá, Ô Jubiabá
Faz o feitiço bem feito
Pra minha nega voltar



Jubiabá
Gilberto Gil

Negro Balduíno, belo negro baldo
Filho malcriado de uma velha tia
Via com seus olhos de menino esperto
Luzes onde luzes não havia

Cresce, vira um forte, evita a morte breve
Leve, gira o pé na capoeira, luta
Bruta como a pedra, sua vida inteira
Cheira a manga-espada e maresia

Tinha a guia que lhe deu Jubiabá
Que lhe deu Jubiabá
A guia

Trava com o destino uma batalha cega
Pega da navalha e retalha a barriga
Fofa, tão inchada e cheia de lombriga
Da monstra miséria da Bahia

Leva uma trombada do amor cigano
Entra pelo cano do esgoto e pula
Chula na quadrilha da festa junina
Todo santo de vida vadia

Tinha a guia que lhe deu Jubiabá
Que lhe deu Jubiabá
A guia

Alva como algodão e tão macia
Como algo bom pra lhe estancar o sangue
Como álcool pra desinfetar-lhe o corte
Como cura para a hemorragia

Moça Lindinalva, morta, vira fardo
Carga para os ombros, suor para o rosto
Luta no labor, novo sabor, labuta
Feito a mão e não mais por magia

Tinha a guia que lhe deu Jubiabá
Que lhe deu Jubiabá
A guia

Negro Balduíno, belo negro baldo
Saldo de uma conta da história crua
Rua, pé descalço, liberdade nua
Um rei para o reino da alegria

Tinha a guia que lhe deu Jubiabá
Que lhe deu Jubiabá
A guia


Jubiabá
Gerônimo

É ele o estivador
Seu suingue é um suor

Toda nega faz amor com ele,
Toda branca tem maior tensão, ô
Arêre tem confusão na pele
Tem Jubiabá seu protetor
Toda nega faz amor com ele,
Toda branca tem maior tensão,

Arêre de confusão na pele
Tem Jubiabá seu protetor
Jubiabá, baba, baba, babalaô

Bauduíno guerreira

É de canto e de samba

É comum no coração

Jubiabá
Luta pela divisão

Jubiabá
Na boca do mangue é rei
Despediu-se um grande amor
Uma bala cega sem destino,
Foi no peito do trabalho,
Este era o sonho do menino
Bauduíno sempre vencedor


[...] não sabia o que esperar de Jubiabá. Respeitava-o mas com um respeito diferente do que tinha [pelos outros adultos] os homens o ouviam com respeito; recebia cumprimentos de todos [...]. Na sua infância sadia e solta, Jubiabá era o mistério.



fonte e mais:
Fundação Casa de Jorge Amado

quarta-feira, 1 de junho de 2011

::: carybé :::

Hector Julio Páride Bernabó  -   1911-1997

argentino de nascimento, baiano por opção...

cinco mil trabalhos, entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços.


ilustrador:
livro Ganga Zumba - João Felício dos Santos

ilustrador de coração de Jorge Amado, que disse sobre ele:
"feito de enganos, confusões, histórias absurdas, aparentes contradições, e, ao mesmo tempo, é a própria simplicidade".


Jorge Amado escreveu esta história para o seu filho João Jorge, em 1948, em Paris, e a inicia com esta trovinha:
O mundo só vai prestar
para nele se viver
no dia em que a gente ver
um gato maltês casar
com uma alegre andorinha
saindo os dois a voar
o noivo e sua noivinha
dom gato e dona andorinha

(Trova e filosofia de Estevão da Escuna poeta popular
estabelecido no Mercado das Sete Portas, na Bahia) (p.12)
O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

por quase toda a sua vida, o pintor acreditou que o seu apelido Carybé provinha de um pássaro da fauna brasileira. Somente muitos anos depois, através do amigo Rubem Braga, descobriu que a sua alcunha significava 'mingau ralo', o que lhe rendeu diversas brincadeiras.

baiano puro sangue




o compadre de ogum

auto retrato