... finda a bonança, e chegada a tempestade que cercava, o que resta é abandonar as armas
e retomar a luta ...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

::: trilogia :::

três figuras de cera,
três estátuas de areia,
três imagens de pedra,
três rascunhos de si.
três pontas,
três pontos,
reticências,
um fim.
trindade,
triathlon,
triciclo,
três ciclos.
três partes,
três partos,
três mundos em mim.

paula quinaud

(pelo traço de carlos minchilo)



::: pessoa - ele mesmo :::

Eros e Psique, de Antonio Canova, em 1787-93

...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
(Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio Na Ordem Templária De Portugal)

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia

Fernando Pessoa

Publicado pela primeira vez in Presença, n.os 41-42, Coimbra, maio de 1934. Acerca da epígrafe que encabeça este poema diz o próprio autor a uma interrogação levantada pelo crítico A. Casais Monteiro, em carta a este último:
A citação, epígrafe ao meu poema "Eros e Psique", de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente - o que é fato - que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1888. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a origem) trechos de Rituais que estão em trabalho [In VO/II.]

sábado, 23 de abril de 2011

::: salve jorge :::

Hoje é dia São Jorge da Capadócia de livros e rosas, porque na Catalunha é o dia do santo padroeiro, do amor e da cultura. A questão do livro vem de 1926 quando a Espanha instaurou o dia 23 de Abril como Dia do Livro pois esta data coincidia com a morte de Cervantes, imitando a Inglaterra que já o celebrava no mesmo dia - porque também coincide com a morte de Shakespeare. Já com as rosas é muito difícil definir a data exata que marcou o início da tradição popular de oferecê-las no dia de São Jorge. Deve ser muito antiga, já que, desde o século XV há registros da celebração da Feira das Rosas neste dia. Por aqui dar rosas hoje cai bem, pra celebrar o nascimento de Alfredo da Rocha Vianna Filho, que nos ofertou com a mias bela de todas:
Tu és, divina e graciosa Estátua majestosa do amor Por Deus esculturada E formada com ardor Da alma da mais linda flor De mais ativo olor Que na vida é preferida pelo beija-flor Se Deus me fora tão clemente Aqui nesse ambiente de luz Formada numa tela deslumbrante e bela Teu coração junto ao meu lanceado Pregado e crucificado sobre a rósea cruz Do arfante peito seu Tu és a forma ideal Estátua magistral oh alma perenal Do meu primeiro amor, sublime amor Tu és de Deus a soberana flor Tu és de Deus a criação Que em todo coração sepultas um amor O riso, a fé, a dor Em sândalos olentes cheios de sabor Em vozes tão dolentes como um sonho em flor És láctea estrela És mãe da realeza És tudo enfim que tem de belo Em todo resplendor da santa natureza Perdão, se ouso confessar-te Eu hei de sempre amar-te Oh flor meu peito não resiste Oh meu Deus o quanto é triste A incerteza de um amor Que mais me faz penar em esperar Em conduzir-te um dia Ao pé do altar Jurar, aos pés do onipotente Em preces comoventes de dor E receber a unção da tua gratidão Depois de remir meus desejos Em nuvens de beijos Hei de envolver-te até meu padecer De todo fenecer Rosa Pixinguinha / Otávio de Souza

sexta-feira, 22 de abril de 2011

::: paixão :::

::: em meu peito catolaico tudo é descrença e fé :::
a prosa impúrpura do caicó - chico césar
::: nessa sexta feira todo mundo é mineiro... junto :::

sexta-feira, 11 de julho de 2008

::: outro João :::

... e o que vai ser de mim que tenho João ...

O que vai ser de João, Bruno, Pedro... e de Raphael, Marco, Henrique, Gustavo? E de outros tantos Antônios, Gabriéis, Andrés, Rodrigos, Lucas, Matheus, Thiagos menores... quiçá quando maiores? Há um ano, cinco meses e dois dias atrás, desabafei em meu fotolog, tomada de desesperança por conta de um João, o Hélio. E de temor por conta de outro, o meu... Declarei meu cansaço com um mundo que arrastava crianças, me envergonhei por pertencer à raça humana, ante o que ela era capaz. Chorei sozinha, falei com alguns, escrevi pra quem quisesse ler... no final não fiz nada. Amofinei-me nas questões sociais de sempre... eram bandidos. Com o João da vez, o Roberto, foram os mocinhos. A desculpa maniqueísta cada vez dura menos, a exploração de um tema por venda de jornal cada vez mais. A situação fica. Recuso-me a fazer cara de espanto, não tenho o direito de me surpreender com nada. Tenho prole e a obrigação de estar calejada, por estar alerta. Polícia para quem precisa...
Escrevo hoje porque ontem assisti a um “espetáculo” numa das maiores avenidas da cidade às três horas da tarde (Av. do Contorno – moro em Belo Horizonte / Minas Gerais / Brasil): Vários carros pretos que deviam estar indo fazer algo muito importante, porque um batedor ia alguns quarteirões à frente já preparando o caminho. De dentro de um dos carros um policial seguia gritando com todos os motoristas em volta, xingando os que não conseguiam dar a passagem imediata. Exigia duas pistas livres. A certa altura um dos carros parou (o que tinha o policial que xingava), dois ou três desceram com armas enormes, que jamais conseguiria pronunciá-las o nome, mesmo que as conhecesse. Fizeram o “mise en scène” de sempre, apontando as armas e olhando em volta... durou dez segundos de vida e uma existência de medo. Voltaram pro carro. Seguiu o carro, seguiu o policial xingando. Ficou o ar parado com o eco das sirenes e a perplexidade teimosa que insiste em se instalar onde não devia - a cena e o medo já me deviam ser previsíveis. Não fui mãe alerta. Me vi na fragilidade do meu carro. Olhei pro banco de trás e vi a fragilidade do meu João. Me senti nada, me senti pó. Como a leoa que não consegue proteger a cria. Como todas as mães quando não conseguem proteger seus filhos... Como uma mãe de João... Talvez pior porque a ameaça vinha de quem deveria proteger as mães...
Na minha ignorância, ainda não consegui saber a importância da operação de ontem. Da expressão do rosto do policial que xingava não vou me esquecer. Quanto ao meu espanto, escrevo justo na tentativa de exorcizá-lo, pra me manter mais alerta e menos frágil, digna, sem ninguém por mim, de ser chamada de mãe.

paula quinaud